segunda-feira, 10 de outubro de 2016

SLAYER - Reign in Blood, Um Marco No Panteão Das Divindades Do Metal Pesado.





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30 anos se passaram, mas o que poderia ser para muitos um envelhecimento, no caso do terceiro disco do Slayer é mais um ano rumo à eternidade. O ano de 1986 rendeu bons frutos para a cena metal no mundo, considero o ano do ápice do estilo mais amado e odiado na face desse planeta. 

Naquela época, Rick Rubin tinha uma gravadora, a Def Jam, mais conhecida pela cena hip hop, porém o conhecido produtor apostou naqueles caras e ajudou a trazer ao mundo uma agressividade latente e desmedida, tanto é que Reign In Blood foi considerado pela revista Kerrang! "o álbum mais pesado de todos os tempos", e juntamente com Master of Puppets do Metallica, Among The Living do Anthrax, e Peace Sells... But Who's Buying do Megadeth, moldou a trilha sonora do thrash metal durante a década de 80. 

Slayer deixa o lado satânico de suas letras e mergulha em temas mais condizentes com a realidade, e isso de certa forma dá mais substância ao álbum. Angel Of Death, que fala sobre Joseph Mengele - médico que conduzia experiências macabras e doentias com os judeus nos campos de concentração nazista - inicia a agressividade que vai permear o disco até o último minuto. Diferente de seus discos anteriores - Show No Mercy e Hell Awaits - a produção está mais "na cara" e limpa, podendo ouvir todos os instrumentos nitidamente. A estrutura de Angel of Death é perfeita. Um refrão que faz todos cantarem, versos cantados agressivamente e com melodia; riffs e mais riffs, e tudo isso sendo conduzidos pela bateria insana. Aliás, falar de Tom Araya, Kerry King, Dave Lombardo e do saudoso Jeff Hanneman é chover no molhado. Todos nós sabemos que essa formação é mágica e quem criou os maiores discos dessa instituição chamada Slayer. 



É interessante porque Reign In Blood é com toda a certeza a junção perfeita do metal com atitude punk, e enquanto outras bandas faziam músicas mais elaboradas com tempos mais longos, o Slayer suprimia tudo isso em poucos minutos. Era como sentir uma seqüência de socos na boca do estômago e cair no chão sem saber quem o atingiu. Músicas como Jesus Saves, Reborn, Postmortem e as clássicas Raining Blood e Angel of Death pavimentam a agressividade dessa banda, e que quando se apresenta ao vivo você pode sentir a presença do Tinhoso no palco tamanha a aura maligna que permeia essa instituição chamada Slayer!

https://www.youtube.com/watch?v=T5_SEr4k6rA

Tracks:
01. Angel Of Death
02. Piece By Piece
03. Necrophobic
04. Alter Of Sacrifice
05. Jesus Saves
06. Criminally Insane
07. Reborn
08. Epidemic
09. Postmortem
10. Raining Blood

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

IRON MAIDEN - 30 anos de Somewhere In Time

Quem assistiu à minha participação no Panelaço, programa do meu querido amigo João Gordo - veja o video AQUI - viu que comecei a curtir metal vendo o clipe do Iron Maiden, Aces High. Pois bem, daquele dia em diante esse estilo se tornou parte de mim e o Iron Maiden uma das bandas que mais escutava.
De toda a discografia deles, é inegável a importância do Powerslave para o estilo. Sempre brinco dizendo que se o primeiro do Black Sabbath é a Gênesis, a criação do mundo; o Powerslave é o nascimento de Cristo devido ao caráter mítico dessa obra.
Porém o ser humano é engraçado devido às suas diferentes opiniões, e contrariando essa máxima mas não desrespeitando-a, o meu preferido sempre vai ser o Somewhere In Time, e é dele que irei tecer algumas palavras.


A começar pela capa. Não tem preço o dia em que fiquei ouvindo o vinil e vendo aquela gravura, todos os detalhes tentando descobrir o que tinha de mais extraordinário que fugia aos meus olhos.
E naquela época eu estava adentrando no maravilhoso universo dos livros de ficção científica, e quando o Somewhere entrou na minha vida, percebi a perfeição da união dos dois mundos no qual estava vivendo intensamente e vorazmente, heavy metal e ficção científica.


Esse disco tem tantas nuances e detalhes que seria preciso um livro inteiro para podermos destrinchá-lo, porém serei extremamente breve e objetivo e quem sabe, num futuro próximo, venho trazer mais detalhes sobre ele.
O disco abre com a Caught Somewhere in Time com aquela nota me arrepiando por inteiro e me transportando para o futuro. É como estivesse entrando em uma nave rumo ao espaço infinito à procura de novas aventuras. Era assim que eu me imaginava ao ouvir esse disco. Seu riff inicial também nos remete ao Egito antigo porque há essa sensação no ar, uma certa conexão; e é interessante esse paralelo do passado antigo e o futuro. Já Wasted Years simplesmente tem o solo mais cativante do metal, sem falar o videoclipe que conta a carreira da banda em imagens intercaladas com a mascote Eddie em capas memoráveis, cortesia do mago Derek Riggs. Sea Of Madness é a minha preferida, tanto lírica como em estrutura musical... e que música! A melhor do Maiden, e top 5 das faixas mais memoráveis do heavy metal de todos os tempos. Heaven Can Wait empolga e culmina com aquela parte do côro, o "ÔÔÔ" mais famoso do mundo. The Loneliness Of The Long Distance Runner é o tipo de faixa que considero uma prévia do que viria a ser o heavy melódico num futuro próximo. O groove e a cadência chega em Stranger In A Strange Land e criam um clima maravilhoso para que Bruce Dickinson prove o porque dele ser considerado um dos maiores vocalistas de metal ao lado de Dio e Rob Halford. Deja-vu é rápida mas maravilhosamente bem feita com sua batida energética e refrão cativante. E Alexander The Great... o que falar desse verdadeiro épico que sonhamos ouvir e ver ao vivo um dia? A história de Alexandre, o Grande, o maior conquistador da História Antiga, "ilustrada" com maestria pela Donzela de Ferro e que fecha essa obra-prima suprema do metal. 


Em tempo...
Certa vez, na época do Torture Squad, viajamos para o primeiro show fora de São Paulo. Pegamos o ônibus à noite rumo à Balneário Camboriú e tocaríamos em um evento cuja produtora era Viviana Torrico, esposa do João Gordo. O ano era 1995. No meio do trajeto estava ouvindo justamente no meu discman o Somewhere in Time, e na passagem de uma faixa pra outra ouço Cristiano - guitarra - dizer que no céu tinha uma luz estranha. Quando olho para a janela vejo uma bola de luz fazendo várias evoluções no ar diferente de tudo que eu tenha visto. Não era balão nem tampouco avião. Subitamente aquela misteriosa luz pára, e de repente, numa velocidade sem precedentes ela some na escuridão da noite. Chegamos a tomar um susto com aquele objeto misterioso e que com certeza não era daquele mundo. E o mais engraçado, justamente na hora em que eu ouvia esse maravilhoso disco. Histórias do rock'n'roll.



01. Caught Somewhere In Time
02. Wasted Years 
03. Sea Of Madness 
04. Heaven Can Wait 
05. The Loneliness Of The Long Distance Runner
06. Stranger In A Strange Land 
07. Deja-Vu 
08. Alexander The Great

Line-up:

Bruce Dickinson - vocals
Steve Harris - bass
Dave Murray - guitar
Adrian Smith - guitar
Nicko McBrain - drums



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

RUNNING WILD - The Brotherhood (2002)

É muito difícil fazer uma resenha sobre a banda que mais gosta porque, como fã, todos os álbuns são maravilhosos e merecem sempre a nota máxima.

Conheci o Running Wild na Galeria do Rock quando ia para mais um dia de trabalho na loja Burn, e topei com o meu amigo Castor (baixista do Torture Squad) ouvindo a faixa Under Jolly Roger. Fiquei maravilhado, principalmente pelo som dos canhões antes do refrão, e naquele mesmo dia fui correndo comprar uma caixa de fitas K-7 na hora do almoço para gravar aquele disco e outros CDs.
Um mês depois me deparo com uma promoção de discos sem capa – apenas a bolacha no plástico – na Woodstock Discos, do meu querido Walcir Chalas. Levei dois, o Arrggghhh do Voivod e o Gates To Purgatory do Running Wild. Pronto!
A partir daquele momento, meu coração era da pirataria, sendo fã incondicional até hoje desse patrimônio alemão. Um exemplo é a página Running Wild Brasil no Facebook, criada por mim para homenagear esse grande ícone do Metal. Bom, após essa introdução vamos ao que interessa.

“The Brotherhood” (2002) é o décimo segundo álbum da banda e ele prima por músicas que se misturam num estilo entre o Hard Rock e Heavy Metal, e o ponto fraco dele é a bateria eletrônica, iniciada no álbum anterior, “Victory”, e que deixou algumas músicas com um andamento um pouco maçante:

Welcome To Hell
Abre com estardalhaço e mantém o pique Heavy Metal do começo do álbum com palhetadas vigorosas.
Soustrippers
Tem um refrão que gruda na mente e o que a sustenta são as guitarras principalmente na parte dedilhada.
The Brotherhood
A faixa-título se inicia com uma linda e simples introdução de cravo culminando em um sentimento épico traduzido nas notas da guitarra do Capitão Rolf. O refrão é no estilo “unidos venceremos” com solos à la Iron Maiden.
Crossfire
Bem Hard Rock e que faz lembrar um pouco o Thin Lizzy. Outro refrão que gruda na mente.
Siberian Winter
Excelente faixa instrumental. O título dela faz jus ao som porque parece que somos transportados para o inverno siberiano.
Detonator
Talvez a mais fraca do álbum. Senti uma falta de maior inspiração nessa faixa apesar do baixo mantê-la viva. Como disse no começo da resenha, o maior pecado foi a introdução de uma bateria eletrônica e isso reflete muito na música deixando-a sem alma.
Pirate Song
Simples e direta, e sem querer soar redundante, a faixa realmente tem aquela sensação de pirataria no ar, ou melhor, em alto-mar. Com mil tubarões, “Pirate Song” é uma ótima pedida para começar o desjejum seus cães vadios!
Unation
Outra faixa de acento mais Hard e com uma melodia carismática e emotiva. O refrão também é no melhor estilo “unidos venceremos”.
Dr. Horror
Gosto muito do pique dessa faixa. O ritmo empregado pelas guitarras e a forma como Rock’n’Rolf canta fazem dessa música a melhor do disco. É bem simples e até mesmo básica mas com uma dose de groove e criatividade a coisa pode sair muito bem. Heavy Metal dos bons para balançar a cabeleira.
The Ghost
Essa música foi inspirada no aclamado filme Lawrence da Arabia, com Omar Shariff e Peter O’Toole, e cujo argumento baseia-se na biografia de T.E. Lawrence (1888–1935) descrita no seu livro Sete Pilares da Sabedoria. O filme explora a excentricidade e a personalidade enigmática de Lawrence. Musicalmente falando, a faixa se destaca com uma introdução bem oriental, e ao longo de seus mais de 10 minutos temos a real sensação de sermos transportados para as Arábias graças à criatividade e a habilidade de Rock’n’Rolf em passar essa sensação através das notas de sua guitarra.
Powerride
Heavy Metal puro sem firulas, e antes do solo lembra um pouco a faixa “You’ve Got Another Thing Comin'” do Judas Priest. Parece até uma sobra do “Victory”.
Faceless
O álbum finaliza com mais uma faixa de Metal puro no melhor estilo Running Wild.

Running Wild prima por canções que na maioria delas são bem similares, apesar de que isso não é demérito nenhum – mais que isso, a banda entra no rol de grupos como AC/DC e Motörhead, que priorizam o seguinte lema “menos é mais”.
“The Brotherhood” não chega a ficar no mesmo patamar dos maiores discos da banda, mesmo assim empolga e mantém a força desse verdadeiro ícone mundial do Heavy Metal. Tally-ho!!!!

Formação:
Rolf Kasparek (vocais, guitarras);
Peter Pichl (baixo);
Angelo Sasso (bateria).

Faixas:
01 – Welcome To Hell
02 – Soulstrippers
03 – The Brotherhood
04 – Crossfire
05 – Siberian Winter
06 – Detonator
07 – Pirate Song
08 – Unation
09 – Dr. Horror
10 – The Ghost
11 – Powerride (Bonus Track)
12 – Faceless (Bonus Track)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

SAXON - Killing Ground (2001)

Sim, o Saxon possui uma coisa que poucas bandas têm: a capacidade de combinar riffs poderosos de Metal com um sentido de melodia. Eles sempre abrangeram essa linha tênue entre o Metal épico e Classic Rock simples e que agradam em cheio a multidão headbanger. E “Killing Ground”, seu 15º álbum, não é exceção.



Quando a introdução épica de “Prelude To War” finaliza, e então explode a faixa que dá título ao álbum, constatamos que estamos diante de mais um clássico dessa banda em nossas mãos. As guitarras de Paul Quinn e Doug Scarrat fritam e disparam palhetadas poderosas imprimindo a agressividade já no início do álbum, e desse modo vão se distanciando mais e mais da fase “Destiny”, onde algumas músicas soavam bem melodiosas. “The Court of The Crimson King” é um clássico do King Crimson, e que na versão do Saxon ficou maravilhosa com a banda aliando a melodia dessa bela canção com o peso de suas guitarras metálicas. A cereja desse bolo vem com a voz cativante de Biff. “Coming Home” me fez lembrar, com o seu riff, o ilustre Rainbow da fase Dio. Essa faixa é mais voltada ao Hard Rock, mantendo a média do álbum. E como no mundo do Metal as influências vão se entrelaçando e formando essa teia magnífica de sons e timbres, a faixa “Hell Freezes Over” chega a lembrar de leve outra banda emblemática, AC/DC. Aliás, sempre associei o Saxon como uma junção de AC/DC com Judas Priest, ora pendendo para o lado mais Rock ’n’ Roll/Hard/Blues, ora para o Heavy Metal. O pré-refrão é divino e o refrão, sensacional.
A velocidade retorna com “Dragon’s Lair”, que poderia muito bem ter saído do álbum “Unleash The Beast”. Riffs metálicos sendo desferidos, e bateria full power comandando. Simples, porém de uma honestidade ímpar. “You Don’t Know What You’ve Got” é um groove de responsa. Pesadão e cadenciado com um trabalho de bateria e baixo notáveis, cortesia de Fritz Randow e Nibbs Carter respectivamente. Eu não sei, mas acho que o Glenn Hughes deve ter dado uma passadinha no estúdio quando eles estavam gravando essa faixa.


A próxima música é a que mais gosto e que tem o estilo clássico de composição do Saxon, “Deeds of Glory”. E ela tem todos os elementos para isso; estrutura simples, riffs cativantes, refrão “unidos venceremos” e solos eficientes. Heavy Metal puro em sua essência. “Running For Border” é bem parecida com “You Don’t Know What You’ve Got”, só que é bem mais venenosa e cheia de groove com Nibbs Carter, mais uma vez, dando um show de baixo. Timbre brutal. “Shadows On The Wall” é uma balada que começa açucarada, mas no meio do verso se transforma em uma cadência pesadíssima e efeito na voz culminando em um refrão com ares celestiais. Meio anjo-demônio-deus. Solos inspiradíssimos, e como eles soam grandiosos em se tratando de Saxon. “Rock Is Our Life” fecha o álbum. O riff inicial lembra demais o Iron Maiden, e de certa forma é até plausível já que ambas as bandas são contemporâneas da NWOBHM. Épica, grandiosa e perfeita para fechar esse magnífico disco, em suma, Heavy Metal puro. Na edição japonesa do álbum há um bônus, “Backs To The Wall”, faixa do primeiro álbum da banda em uma versão matadora. Como o CD é duplo, o disco dois ficou reservado para releituras dos grandes clássicos da banda mas com uma roupagem mais pesada, e o resultado é simplesmente magnífico. “Princess of The Night”, “Crusader”, “Wheels of Steel”, “Motorcycle Man”, “Strong Arm of The Law”, “Denim and Leather”, “Dallas 1 PM” e “And The Bands Played On” foram as escolhidas.
Na verdade, “Killing Ground” não vai sacudi-lo e deixá-lo atordoado ou perplexo, mas o álbum tem aquele algo familiar e mantém o Saxon no panteão das maiores bandas de Heavy Metal de todos os tempos. Indispensável.

Formação:
Biff Byford (vocal);
Paul Quinn (guitarra);
Doug Scarratt (guitarra);
Nibbs Carter (baixo);
Fritz Randow (bateria).

Faixas:
01 – Prelude To War (Intro)
02 – Killing Ground
03 – In The Court of The Crimson King (King Crimson Cover)
04 – Coming Home
05 – Till Hell Freezes Over
06 – Dragon’s Lair
07 – You Don’t Know What You’ve Got
08 – Deeds of Glory
09 – Running For The Border
10 – Shadows on the Wall
11 – Rock Is Our Life

CD 2 Bônus:
01 – Princess of The Night
02 – Crusader
03 – Wheels of Steel
04 – Motorcycle Man
05 – Strong Arm of The Law
06 – Denim and Leather
07 – Dallas 1 PM
08 – And The Bands Played On

sábado, 24 de setembro de 2016

RUSH – Counterparts (1993)

“Counterparts” é o 15º álbum do Rush e mostra o retorno da banda à base guitarra-baixo-bateria, tornando-se menos dependente de sintetizadores e tecnologia. Isso pode ser ouvido desde a parte lírica, performance e produção. “Counterparts” marca também o retorno do co-produtor Peter Collins, que produziu os álbuns “Power Windows” e “Hold Your Fire”.
O termo “counterparts” é descrito como ‘duplicar’ e ‘se opor’ – uma definição que intrigou tanto o baterista Neil Peart que ele até filosofa: “…considere dessa maneira, contrários são os reflexos de cada um, não necessariamente contraditórios.”

Bom, “Counterparts” recoloca Alex Lifeson uma vez mais no front deixando fluir seu estilo característico e paradoxal de tocar riffs complexos, solos com enorme facilidade, e tendo as linhas de baixo do espetacular Geddy Lee e o mestre da bateria Neil Peart mantendo tudo azeitado do começo ao fim do álbum.
Ainda podemos ouvir alguns resquícios de sintetizadores, mas eles são relegados a apoiar e acentuar a melodia, e a diferença é gigante.
“Counterparts” não foi produzido com um volume muito alto como seus trabalhos anteriores. A música nesse caso está mais orgânica e fica evidente com as três primeiras faixas do álbum – “Animate”, “Stick It Out” e “Cut To The Chase” – transformando em um trio certeiro de hits. Mas mesmo com todo esse poder cru de Rock, eles ainda descobrem espaços para comentários de cunho cultural, ora sentindo-se compassivos com os gays na faixa “Nobody’s Hero”, ora filosofando sobre as diferenças de raça e gênero em “Alien Shore”, ou seja, o Rush sempre parece estar apto para fornecer mensagens cheias de sentimentos sem ter que soar brega.

Mas depois de embalar o ouvinte e chegar a convencê-lo de que a banda tinha retornado fortemente à forma, mesmo que não signifique que ela estava tocando Rock progressivo novamente, esse é o momento onde há um certo declínio. “Between The Sun & Moon” é uma faixa divertida, mas “Alien Shore”, “Speed Of Love” e “Double Agent” não são tão boas, porém não chegam a denegrir o álbum.
As coisas voltam a mudar com a belíssima instrumental “Leave That Thing Alone”. Uma introdução de sintetizador, linhas de baixo e bateria precisas e empolgantes amparando o trabalho maravilhoso de guitarra, e dessa forma conseguem criar uma melodia deslumbrante. Aliás, essa faixa foi indicada a um Grammy como melhor performance de Rock, categoria vencida pelo Pink Floyd com a música “Marooned”.
O álbum encerra com as ótimas faixas “Cold Fire” e “Everyday Glory”. “Counterparts” nasceu no momento certo, forjando um trabalho lírico impecável do Rush com a onda musicalmente durona e roqueira do Grunge, servindo como um protótipo espiritual apropriado para bandas como Incubus e Foo Fighters. Um retorno às raízes do trio canadense.
https://www.youtube.com/watch?v=uH8n-_HRnZc

sábado, 16 de julho de 2016

20 ANOS DO ÁLBUM ROOTS DO SEPULTURA

Deixa eu contar uma história pra vocês...
Certo dia, minha irmã comprou uma revista Bizz e nela veio uma matéria sobre o Sepultura. 

Era a primeira vez que tinha contato com a banda, e naquelas páginas fico sabendo um pouco da vida desse grupo mineiro que naquele momento estava às vésperas do lançamento do seu terceiro álbum, Schizophrenia. 
Schizophrenia [1987]

A segunda vez que me deparei com a banda foi novamente através de outra edição da Bizz de 1990, e com uma matéria mais extensa me maravilhei com os feitos que a banda estava fazendo em territórios além mar, seus shows memoráveis com o Napalm Death e Nuclear Assault aqui no Brasil, e ri da treta que eles tiveram com o Sodom. Resumindo, estava começando a conhecer o poder do maior representante do metal brasileiro. 
Revista Bizz - Edição 61 - Agosto 1990

Nessa época, o clipe da música Inner Self surgia no extinto programa Clip Trip - antigo Realce Baby - e no outro dia, lá estava eu adquirindo o Beneath The Remais, meu primeiro disco de vinil comprado na vida. Impressionado com toda essa usina criativa, me apaixonei ao primeiro acorde e decorei as letras, os licks e os solos memoráveis chegando a seguinte conclusão: Sepultura é foda! 
Em 1991 a banda lança o que considero um dos maiores discos de thrash de todos os tempos, Arise.
Se Beneath The Remains já era espetacular, Arise então, nem se fala. Ele simplesmente me inspirou a ser vocalista. Porém não era só o Max que me inspirava mas a junção dos membros da banda era tão especial que fez a música do Sepultura influência para toda a minha vida.
Beneath The Remains [1989] - Arise [1991]

Mas junto a isso havia minha parcela radical que não aceitava nada que fosse menos pesado que o Sepultura, e um fato que aconteceu comigo elucida muito bem isso.
Um amigo meu, fã de hard rock e heavy metal, veio trocar uma ideia e começamos a falar de bandas e ele me solta essa:
- Você devia parar de ouvir um pouco esse Sepultura. Já ouviu W.A.S.P. mano? É animal!
E categoricamente arremato:
- W.A.S.P. é um lixo!
Falei meio que na zoeira, mas era uma época que além do Sepultura estava ouvindo Death, Morbid Angel, Sacred Reich entre outras bandas bem pesadas.
Mas o meu radicalismo era tão evidente que quando o Sepultura anunciou a participação de Jello Biafra do Dead Kennedys em seu disco Chaos A.D., eu torci o nariz e não queria mais saber da banda. Me senti traído. E quando o disco foi lançado, nem quis saber suas músicas, letras, nada!
Para o Vitor Radical, a pá de cal foi em 1996 quando a banda anuncia a participação de Carlinhos Brown no álbum Roots. Não entendi nada e naquele momento Sepultura tinha morrido para mim.
Mas nada melhor que o tempo, e com ele fui aprendendo aos poucos a compreender o universo que cerca a música.
Chaos A.D. [1993] - Roots [1996]

Hoje, comemoramos 20 anos do álbum Roots, e entre tantas qualidades esse disco criou um estilo, o Nu Metal. E independente de ser ruim ou não, pra muito moleque a porta de entrada para sons mais pesados foi através desse álbum, assim como foi com Smells Like a Teen Spirit do Nirvana, e assim vai. 
O Roots também serve como pedra angular do que viria a ser o metal nativo brasileiro (dou uma pincelada no tema AQUI). 
O disco é o primeiro registro metal de um tema que existe antes mesmo da chegada do homem branco a essas terras, e ainda versa sobre a raça negra que foi - e continua sendo - maltratada em nosso país. 
Roots é um manifesto sócio-cultural traduzido em música, letra e som, e hoje entendo o porquê dos índios Xavantes, do Carlinhos Brown, das partes percussivas. 
Ainda continuo sendo fã da trinca de aço: Schizophrenia, Beneath The Remains e Arise, mas não nego a importância que o álbum Roots ainda tem no cenário do metal mundial.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

SERÁ QUE AS PESSOAS LEEM MESMO?

Será que as pessoas leem mesmo?
Será que elas param por alguns minutos para ler resenhas - de cds e de shows - artigos, ensaios, matérias, blogs e outros assuntos?
Como já disse em alguns posts antigos, a humanidade atravessa um período em que a informação surge velozmente e se esvai mais rápida ainda, e como estamos todos numa correria, resolvendo coisas do dia-a-dia, sempre nos pegamos com algo do tipo "não me sobra mais tempo" ou "preciso agilizar isso o mais rápido possível" ou "não tenho tempo para me coçar, quanto mais para ler". E esse tipo de atitude chega a ser desestimulante para quem escreve. 
O que não falta na net é conteúdo. Dos mais variados tipos. Para todos os gostos. 
Mas será que as pessoas leem mesmo? 
Chega até ser um paradoxo a Bienal do Livro todo ano bater recordes de vendas de livros, e me pergunto onde estão esses leitores?
Bom, vou esclarecer essa pulga na minha orelha.
Faço parte de alguns sites de metal que colocam conteúdos preciosíssimos para que o público leia e se interaja com a enorme gama de informações, e dessa forma se engajar em comentários acerca desse conteúdo, porém há mais participação do público em matérias onde existem polêmicas e com pessoas se agredindo verbalmente. Ao invés de alguns tomarem uma posição adulta, com senso crítico, vejo apenas atitudes infantis.
Existem pessoas muito engajadas escrevendo artigos bem legais, sem ganhar um tostão sequer, simplesmente fazendo por amor e isso torna tudo muito mais relevante.
Portanto, gaste um pouquinho do seu tempo, ou reserve um horário especial para ler matérias agradabilíssimas e esclarecedoras sobre determinado tema, e que haja dessa forma uma discussão saudável. 
Segue abaixo alguns canais para que você possa saber minha opinião, conhecer novas bandas e antigas bandas mas acima de tudo manter-se informado pois o conhecimento é a chave de tudo. 
Leia, interaja, dê a sua opinião. Essa atitude enriquece.

Heavy Metal Online 
Traz matérias do mundo do metal e videos documentários sob a batuta de Clinger Carlos.

Rock Mania
Capitaneado por Wander Verch, o programa Rock Mania traz entrevistas com personalidades do mundo do metal, e em seu site traz matérias do mundo metal. Tenho uma coluna chamada Brasil Metaleiro onde destaco bandas nacionais.

Metal Na Lata 
Página do Facebook criada por Johnny Z com o objetivo de deixar o leitor antenado com novidades, lançamentos, eventos e artigos totalmente desprovidos de "encheção de linguiça".

Roadie-Metal
Gleison Jr. é o idealizador do site e ainda comanda o programa Roadie-Metal tocando metal em doses cavalares. Além de dedicar ao estilo pesado em todas as suas vertentes, Gleison lança bandas nacionais através da coletânea Roadie-Metal. Para quem está começando a conhecer bandas, ou quem já conhece e quer saber mais, essa coletânea é um verdadeiro achado.

Todas esses sites são instrumentos onde posso expor minhas ideias e opiniões. Além disso possuo um blog (http://vitorvoodoopriest.blogspot.com.br/), um podcast (https://www.mixcloud.com/vitor-rodrigues-ii/uploads/), e pretendo muito em breve estrear o meu vlog no meu canal do YouTube (https://www.youtube.com/channel/UCu0MbwxXX9dy-GW8j8s8hEg). 
Enfim, encher de conteúdo para quem quiser ler, ver e ouvir. Além desses sites, existe muitos veículos de informação. Escolha e divirta-se!
E finalizo mandando um recado para todos vocês... vamos ler porque uma nação se faz com pessoas e livros.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

KHRANIAL - Bounty Hunters (EP - 2015)

Khranial é uma banda oriunda da cidade de S.José dos Campos formada no final dos anos 80. E após tantas lutas chega ao seu primeiro registro intitulado Bounty Hunters, um EP com cinco músicas. Entre os anos de 1992 e 1993 mudaram o nome para Ancestor, porém Waldir Lobo - guitarra - Evandro Canedo - guitarra - e Guto Rodrigues - bateria - voltaram a utilizar o nome Khranial, e ao lado Dimas Ricardo - baixo - e JC Martins nos nos vocais continuam na ativa até hoje.


Bom, como todo grupo bom de thrash metal, os riffs são um dos maiores trunfos de que ele precisa, e o Khranial destila sem cerimônia. Uma profusão deles! Aliás, uma banda que é muito coesa e sabe o que quer com dois forjadores de riffs e uma bateria forte. Junte-se a isso um baixista competente e um vocal de uma personalidade única e pronto.

O EP Bounty Hunters possui cinco faixas e deveria vir com uma caixa de emplastro Salonpas porque o pescoço vai precisar. "Mortal Hate" é a faixa de abertura e já mostra a que veio, ou seja, um riff nervosamente thrash seguido de um berro à la Tom Araya do Slayer. Resumindo, um convite instantaneo para abrir roda.

"Achiles The Cruel" começa cadenciada mas depois descamba para um thrash estilo Dark Angel/Exodus na hora do solo. O vocal vocifera e em algumas partes lembra de leve Flemming Rönsdorf do Artillery na época do Terror Squad. "Dismember" é a terceira faixa e a que mais gostei pelo fato de haver muitos riffs bons na estrutura dela e isso, de certa forma, te incentiva muito a banguear como se não houvesse amanhã. Preste atenção no riff após o solo e tente não agitar.

A quarta faixa é "Fight to Forget Your Shame" e mantém a energia com uma mescla de heavy mais ritmado no começo, e finalizando com uma parte mais rápida totalmente insana pro cara sair moído da roda ou se acabar nos stage dives, e que abre caminho para a faixa título e última do EP. Mais uma açoitada de riffs pra finalizar a estreia do Khranial, e espero muito que não fiquem apenas nesse EP. Merece um full-leght urgente com uma produção melhor para ampliar o talento deles.

Line-up

Jc Martins - Vocal
Evandro - Guitar
Waldir Lobo - Guitar
Dimas - Bass
Guto - Drums

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

AND THE OSCAR GOES TO...

Aqui no meu blog não falo somente de música mas também de coisas que me fazem questionar, e compartilho com vocês para que possamos debater de maneira saudável conhecendo novas ideias e pontos de vista de cada um. 
Ao longo dos anos, a TV aqui de casa está mais para um enfeite decorativo do que diversão, e a razão é simples, muita violência gratuita, muita mentira, muita programação que não acrescenta absolutamente NADA na minha vida e por aí vai. Claro que, em raras exceções me lembro que ela existe e aproveito para assistir alguma série no Netflix, ou um jogo do Timão, aliás quero abrir um parênteses aqui (não sou daqueles torcedores que morre ou mata pelo time. Se ganhou, legal! Se perdeu, legal! A vida segue) - e mais recentemente, a entrega do Oscar.
Era uma edição importante não somente pelos filmes mas porque a Academia foi alvo de acusações sobre a ausência de artistas negros para a premiação. Porém, nessa edição, vários artistas negros se revezavam na apresentação e entrega do prêmio, com direito a um discurso da presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs fazendo um "mea culpa" na desigualdade do Oscar. A partir daí a coisa foi num crescendo emocional muito forte com o vice-presidente americano Joe Biden num discurso enfático, com Lady Gaga interpretando de maneira extraordinária em seu piano, e emocionando a todos com uma música que fazia parte de um filme que mostrava o problema dos estupros de mulheres nas faculdades americanas. A comovente entrega do Oscar a um dos maiores compositores de trilhas sonoras épicas  - do qual sou muito fã -  Ennio Morricone (87 anos), e que me renderam um suor no olho, e Leonardo DiCaprio, em um dos discursos mais poderosos que me fizeram desabar em profunda emoção, falando do aquecimento global, dos povos indígenas do mundo todo levando os presentes a uma comoção enorme, e sendo aplaudido de pé. Tudo isso sucumbiu à falta de sensibilidade dos pseudos-comentaristas globais, que me fizeram ter vergonha alheia. Estavam se preocupando mais em dar ênfase pra quem iria ganhar o bolão - Bolão?! - e comentários que não acrescentavam absolutamente NADA à transmissão. Sem contar, a atriz Gloria Pires, que tem em sua carreira um currículo invejável na TV e no cinema nacional, mais perdida que surdo em bingo, dando respostas vagas, evasivas, num clima de "o quê que eu estou fazendo aqui?". Uma tremenda falta de conteúdo que inundou a transmissão de um evento desse porte.

Infelizmente isso faz parte de uma realidade no qual estamos passando. De quanto mais for ruim, mais você é legal. Refletindo em todas as áreas do cotidiano. A falta de liderança. A falta de educação. A falta de um cuidado maior. A falta de sensibilidade, de perceber o que é certo e o que é errado. 
Me dá arrepios em saber que as Olimpíadas serão realizadas no Brasil, palco de uma das piores coisas ocorridas aqui, a copa do mundo. 
Seremos goleados novamente? 
Que o discurso do ator Leonardo DiCaprio sirva de inspiração para todos nós. 
[Assista AQUI]



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

EMOCIONANTE TRECHO DO LIVRO DE JIMI HENDRIX

Reserve uns poucos minutos para ler esse trecho muito emocionante do maior guitarrista de todos os tempos, Jimi Hendrix.
O texto foi extraído do livro Starting at Zero: His Own History lançado em 2013 nos Estados Unidos e inédito no Brasil, e postado no site www.cartacapital.com.br/ 

Quando eu tinha 17 anos, formei uma banda com outros rapazes, mas eles me deram um caldo. Eu não sabia por que no início, mas depois de uns três meses percebi que tinha de arranjar uma guitarra elétrica. Minha primeira foi uma Danelectro, que meu pai comprou para mim. Devo ter perturbado ele durante muito tempo. Mas primeiro tive de lhe mostrar que sabia tocar. Naqueles dias eu só gostava de rock'n'roll, acho. Costumávamos tocar coisas de pessoas como os Coasters.
De qualquer modo, todos tinham de fazer as mesmas coisas antes que pudessem entrar em uma banda. Você tinha até de fazer os mesmos passos. Comecei a procurar lugares para tocar. Lembro que minha primeira apresentação foi em um quartel da Guarda Nacional. Ganhamos 35 centavos cada e três hambúrgueres. Foi muito difícil para mim no começo. Eu sabia umas três canções, e quando chegava a hora de tocar no palco eu tremia inteiro. Por isso tinha de tocar atrás da cortina. Não conseguia ficar na frente do palco. Então você fica muito desanimado. Escuta várias bandas tocando ao seu redor, e o guitarrista sempre parece muito melhor que você. A maioria das pessoas desiste nesse ponto, mas é melhor não. Apenas siga em frente, siga em frente. Às vezes você fica tão frustrado que odeia a guitarra, mas tudo isso apenas faz parte do aprendizado. Se você insistir, será recompensado. Se você for muito teimoso, vai conseguir.
23 de setembro de 1966. Foi quando cheguei à Inglaterra. Eles me deixaram esperando no aeroporto três ou quatro horas, porque eu não tinha visto de trabalho. A certa altura falaram em me mandar de volta para Nova York até que tudo fosse esclarecido. Eles agiam como se eu fosse ganhar todo o dinheiro da Inglaterra e levá-lo de volta para os Estados Unidos!
Fui morar em um apartamento com Chas Chandler. Tinha sido de Ringo. Na verdade, só levaram a bateria embora no dia seguinte. Havia altos falantes em todo lugar, e um banheiro muito brega, cheio de espelhos. Imediatamente começaram a chegar reclamações. Em geral eram sobre festas ruidosas e tardias quando estávamos fora da cidade! Voltávamos na manhã seguinte e ouvíamos todas as queixas. Chas ficou muito bravo com isso, mas eu não deixei que me incomodasse.
A primeira vez que toquei guitarra na Inglaterra foi com o Cream. Eu gosto do modo como Eric Clapton toca. Seus solos parecem Albert King. Eric é simplesmente demais. E Ginger Baker parece um polvo, cara. Ele é um verdadeiro baterista nato.
Eu não podia trabalhar muito porque não tinha visto. Se quisesse ficar na Inglaterra, teria de conseguir empregos suficientes para ter um visto prolongado. Então precisávamos tocar com vários grupos. Chas tinha muitos números de telefone. Ele me ajudou a encontrar meu baixista e meu baterista e formar o Jimi Hendrix Experience. Foi muito difícil encontrar os acompanhantes certos, pessoas que sentissem a mesma coisa que eu.
18 de junho de 1967. Monterey, Califórnia. Paul McCartney era o grande Beatle mau, o lindo gato que conseguiu para nós uma apresentação no Monterey Pop Festival. Foi nosso início nos EUA. Tudo foi perfeito. Eu disse: "Puxa! Está tudo em cima! O que vou fazer?"
Em outras palavras, eu estava assustado com aquilo, quase. Estava assustado de subir lá e tocar na frente de tanta gente. Você realmente quer deixar aquelas pessoas ligadas. É como um sentimento de preocupação realmente profundo. Você fica muito intenso. É assim que eu vejo a coisa. Para mim é natural. Quando você toca a primeira nota, ou quando a primeira coisa dá certo, então tudo bem. Vamos pegar essa gente de jeito!
Nós conseguimos, cara, porque fazíamos uma coisa nossa, original. Tínhamos nosso lindo som rock-blues-country-funky-freaky, e estava realmente atraindo as pessoas. Eu me sentia como se estivéssemos dando tesão no mundo inteiro com essa coisa nova.
A música me dá um barato no palco, essa é a verdade. É quase como ser viciado em música. No palco eu esqueço tudo, até a dor. Veja o meu polegar como ficou feio. Quando estou tocando, não penso nisso. Eu apenas fico lá e mando ver. Às vezes você entra em um som tal, que você vai para uma outra coisa. Você não esquece a plateia, mas esquece toda a paranoia, aquela coisa que você dizia: "Oh, meu Deus, estou no palco – o que vou fazer agora?" Então você entra nessa outra coisa, e vem a ser quase como uma peça de certa maneira. Às vezes tenho de me conter, porque fico tão excitado – não, excitado não, envolvido.
Quando eu estava na Grã-Bretanha costumava pensar nos Estados Unidos todos os dias. Sou norte-americano. Queria que as pessoas daqui me vissem. Também queria ver se nós daríamos certo aqui. E conseguimos, cara, porque fizemos nossa própria coisa, e foi realmente a nossa coisa e de ninguém mais. Nós tínhamos um som rock-blues-country-funky-freaky maravilhoso, e realmente estava ligando as pessoas. Eu sentia como se estivéssemos dando tesão no mundo inteiro com essa coisa nova, a melhor, a coisa nova mais adorável. Então eu decidi destruir minha guitarra no fim da canção, como um sacrifício. Você sacrifica as coisas que ama. Eu amo minha guitarra.
A raça não é um problema no meu mundo. Não vejo as coisas em termos de raças. Vejo as coisas em termos de pessoas. Não estou pensando em pessoas pretas ou pessoas brancas. Estou pensando no obsoleto e no novo. Não há divisão de cor agora, nem preto nem branco. Todas as frustrações e os tumultos que acontecem hoje são sobre coisas mais pessoais. Todo mundo tem guerras dentro de si mesmo, por isso formam coisas diferentes, e se revelam como uma guerra contra as outras pessoas. Eles se justificam enquanto justificam os outros em suas tentativas de conseguir liberdade pessoal. Isso é tudo.
Não é que eu não me relacione com os Panteras Negras. Naturalmente me sinto parte do que eles fazem, em certos aspectos. Alguém tem de tomar uma decisão, e nós somos os mais prejudicados no que diz respeito à paz de espírito e à vida. Mas não sou a favor da agressão, violência ou como você quiser chamá-la. Não sou a favor da guerrilha. Nem coisas frustradas, como atirar coquetéis Molotov aqui e ali, ou quebrar uma vitrine de loja. Isso não é nada. Especialmente no nosso bairro.
Eu não sinto ódio por ninguém, porque isso não passa de dar dois passos para trás. Você tem de relaxar e esperar passar pelo sentimento psicológico. Outras pessoas não têm pernas, ou visão, e lutaram em guerras. Você deve ter pena delas e pensar que parte de sua personalidade elas perderam. É bom quando você começa a acumular pensamentos universais. É bom para aquele segundo. Se você começa a pensar negativo, ele muda para amargura, agressão, ódio. Todas essas coisas nós temos de eliminar da face da terra para que possamos viver em harmonia. E as outras pessoas também precisam perceber isto, ou vão lutar pelo resto de suas vidas.
Espero pelo menos dar coragem para os que lutam, através de minhas canções. Eu experimento coisas diferentes, passo por minhas dificuldades, e o que eu aprendo tento transmitir para os outros através da música. Existe uma canção que estou escrevendo agora que é dedicada aos Panteras Negras, não referente à raça, mas ao simbolismo do que acontece hoje. Eles deveriam apenas ser um símbolo para os olhos do establishment. Deveriam ser só uma coisa legendária.
Meu sucesso inicial foi um passo na direção certa, mas foi apenas um passo. Agora pretendo entrar em muitas outras coisas. Eu gostaria de tirar uma pausa de seis meses e frequentar uma escola de música. Quero aprender a ler música, ser um estudante modelo, estudar e pensar. Estou cansado de tentar escrever coisas e descobrir que não posso. Eu quero uma grande banda. Não quero dizer três harpas e 14 violinos – quero dizer uma grande banda, cheia de músicos competentes que eu possa conduzir e compor para ela.
Quero fazer parte de uma grande e nova expansão musical. É por isso que preciso encontrar um novo canal para minha música. Vamos ficar imóveis por algum tempo e reunir tudo o que aprendemos musicalmente nos últimos 30 anos, e vamos misturar todas as ideias que funcionaram em uma nova forma de música clássica. Vai ser uma coisa que abrirá uma nova sensação na mente das pessoas.
Eu curto Strauss e Wagner, esses caras são bons, e acho que eles vão formar o pano de fundo da minha música. Flutuando no céu sobre ele estarão os blues – ainda estou cheio de blues –, e depois haverá a música celeste ocidental e a doce música do ópio (vocês terão de trazer seu próprio ópio!), e estas serão misturadas para formar uma só. E com essa música pintaremos imagens da terra e do espaço, de modo que o ouvinte seja levado para outro lugar. Você tem de dar às pessoas alguma coisa para sonhar.
No momento em que eu sentir que não tenho mais nada a dar musicalmente, é quando eu não serei encontrado neste planeta, a menos que eu tenha uma mulher e filhos, porque se eu não tiver nada para comunicar através de minha música, não terei nenhum motivo para viver. Não tenho certeza se viverei até os 28 anos, mas, mais uma vez, tantas coisas lindas me aconteceram nos últimos três anos. O mundo não me deve nada.
Quando as pessoas temem a morte, é um caso de insegurança total. Seu corpo é apenas um veículo físico para transportá-lo de um lugar para outro sem se meter em muita encrenca. Então você tem esse corpo colocado sobre você, que você tem de transportar, acalentar e proteger e assim por diante, mas até esse corpo se exaure. A ideia é organizar o seu próprio ser, ver se você pode se preparar para o próximo mundo, porque existe um. Espero que vocês consigam sacar.
As pessoas ainda lamentam quando os outros morrem. Isso é autopiedade. Todos os seres humanos são egoístas até certo ponto, e é por isso que as pessoas ficam tristes quando alguém morre. Elas não acabaram de usá-lo. A pessoa que morreu não está chorando. A tristeza é para quando um bebê nasce neste mundo pesado.
Eu lhe digo, quando eu morrer vou ter uma jam session. Eu quero que as pessoas fiquem malucas e enlouqueçam. E, conhecendo-me, provavelmente vou ficar de porre no meu próprio funeral. A música será tocada alto, e será a nossa música. Não quero qualquer canção dos Beatles, mas algumas coisas de Eddie Cochran e muito blues. Roland Kirk estará lá, e eu tentarei trazer Miles Davis se ele estiver disposto. Por isso quase vale a pena morrer. Só pelo funeral. É engraçado o modo como as pessoas adoram os mortos. Você tem de morrer para que elas pensem que você vale alguma coisa. Depois que você morre, você foi feito para a vida. Quando eu morrer, apenas continuem tocando os discos.